Opinião: Vampire Weekend – Only God Was Above Us

Ezra Koenig costuma manter pastas cheias de palavras, frases e imagens que podem traduzir-se em potenciais canções. Desta vez encontrou inspiração para o mais recente álbum dos Vampire Weekend, Only God Was Above Us, na série Subway Dream, do artista norte-americano Steven Siegel. Uma imagem dessa série, que Koenig descreveu como “um encontro entre Pink Floyd e Beach Boys”, desempenhou um papel central no conceito do álbum. Desde o seu título, que equilibra optimismo e fatalismo, até o seu som distorcido e multidimensional que desafia a gravidade tanto quanto mantém os pés no chão.

Género: Indie Rock, Chamber Pop, Neo-Psychedelia
Data de Lançamento: 05/04/2024 

 

Os Vampire Weekend conquistaram a cena indie rock com a sua mistura apelativa de influências, entre elas música popular congolesa, ska e pop barroco. Mas não tardaram em mostrar que ainda tinham muitas cartas na manga. Com o aclamado Modern Vampires of the City (2013), trouxeram uma sonoridade mais sombria e convencional, abandonando as dançantes influências africanas dos primeiros álbuns. Essa mudança de direcção continuou no sucessor, e essencialmente álbum solo, Father of the Bride (2019), com influências de country e folk. Esse álbum marcou uma transição significativa para a banda após a saída do multi-instrumentista e produtor, Rostam Batmangliji, e a ausência do baterista Chris Tomson e do baixista Chris Baio.

Em Only God Was Above Us, a banda retorna à forma. Não porque a tivesse perdido, mas porque reuniu-se novamente em estúdio para criar músicas com estruturas intricadas, incorporando todos os elementos que sempre fizeram parte da sua identidade. A faixa de abertura, ‘Ice Cream Piano’, exemplifica bem isso com as suas secções intrigantes e progressivas de guitarras distorcidas, piano e bateria que culminam num momento orquestral hipnotizante. A atemporal faixa ‘Classical’ mistura jazz, hip-hop dos anos 90 e punk uptempo, e liricamente mostra um Koenig mais interessado nas questões fundamentais da vida do que em jogos de palavras. Na faixa seguinte, ‘Capricorn’, o álbum perde um pouco de momentum, mas recupera rapidamente com a dinâmica e circense ‘Connect’. Esta última é um dos momentos mais magistrais de toda sua discografia.

Only God Was Above Us também é uma ode a Nova Iorque. Há referências à cidade em várias faixas, como ‘Prep-School Gangsters’, ‘The Surfer’ e ‘Mary Boone’. Mas o tema principal do álbum, sobre aprender a prosperar com a história, rompe qualquer limitação geográfica. Na épica e última faixa de 8 minutos, ‘Hope’, Koening usa repetição de forma eficaz com a frase “O inimigo é invencível / Eu espero que deixes pra lá”, que nos lembra que às vezes a melhor forma de seguir em frente é aceitar que não podemos controlar tudo. Esse e outros momentos de reflexão ao longo do álbum podem soar agridoces, e não responderem a muitas questões, mas mostram-nos uma banda madura e disposta a conversar.

 

Faixas favoritas: ‘Classical’, ‘Connect’, ‘Hope’

 

Ruben António

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