Web Summit 2021 – Garry Kasparov, Sir Tim Berners-Lee e um desfecho em grande

O último dia da Web Summit 2021 começou da melhor forma, com uma entrevista exclusiva à Co-founder & CEO da GAMEE. Seguiu-se a sessão de Q&A mais vista desta edição com o campeão do mundo de xadrez e atual embaixador da Avast, Garry Kasparov. Também a NASA marcou presença na conferência tecnológica através de Carlos Garcia-Galan. Ao palco central subiram ainda o COO do Reddit, o Fundador e CEO da Bolt, Sir Tim Berners-Lee, Marcelo Rebelo de Sousa e Paddy Cosgrave.

O último dia da Web Summit 2021 arrancou da melhor forma com uma entrevista exclusiva à Co-founder & CEO da GAMEE, uma empresa que junta o gaming à tecnologia blockchain para criar uma experiência única. A entrevista está disponível no Instagram do Tech4U (@tech4u.er).

O primeiro Q&A do dia foi, certamente, o mais concorrido desta edição da Web Summit. Garry Kasparov, antigo Campeão do Mundo de Xadrez e atual Embaixador das Avast, a empresa de antivírus e segurança informática, subiu ao pequeno palco do espaço de perguntas e respostas (Q&A) para alegrar a multidão que o aguardava. Foi recebido com uma ovação de pé, tendo-se seguido um dos melhores momentos da conferência de tecnologia que se realiza em Lisboa desde 2016.

Garry Kasparov jogou 10 jogos ao mesmo tempo, com os 10 jogadores a serem escolhidos de entre os participantes da Web Summit 2021. Ainda antes do início dos jogos, questionado pelo moderador da sessão sobre que conselho queria dar aos seus oponentes que o enfrentariam dentro de instantes, respondeu “desejo-lhes boa sorte, porque vão precisar muito dela”.

O primeiro a ser eliminado não escondeu a sua desilusão ao dizer que fez um “cálculo errado” e que o que se seguiu foi consequência disso mesmo. Em jeito de brincadeira, mencionou que “não estava à espera que fosse [Kasparov] tão bom jogador”, o que motivou uma gargalhada uníssona do público presente.

Um a um, o russo foi fazendo as suas jogadas de mestre, movendo uma peça e avançando de tabuleiro em tabuleiro, enquanto comentava, com o seu sentido de humor apurado, as verdadeiras desgraças que condenavam os seus oponentes ao cheque mate final.

Um dos últimos resistentes foi o mais jovem dos oponentes do russo, que, com apenas 15 anos, foi o que mais fez Garry Kasparov parar em jeito pensativo sobre o tabuleiro e, assim, “perder” algum tempo, o que é mais do que normal no Xadrez.

O último jogador a resistir conseguiu jogar durante 45 minutos com Garry Kasparov, tendo usado a jogada Queen’s Gambit, curiosamente a jogada que ficou famosa por ter dado não só o nome a uma das séries mais vistas da Netflix como por estar presente, de certa forma, num jogo de palavras com o nome da sessão (The King’s Gambit: Can anyone beat the chess grandmaster?).

Terminados os jogos, o palco deu lugar a uma sessão de autógrafos do livro da autoria de Garry Kasparov, AI & Our Digital Lives, escrito em parceria com a Avast, empresa da qual é atualmente Embaixador.

O palco central no Altice Arena recebeu várias figuras importantes do mundo da tecnologia, começando pela sessão que contou com a presença do COO do Reddit, a plataforma que une comunidades em torno da discussão de temas. Sob o mote Online community and its role in a post-pandemic world, Jen Wong apresentou ao público o estado atual do Reddit e os planos para o futuro, nomeadamente no que ao combate à desinformação e ao bullying online diz respeito.

Questionado sobre o crescimento e o percurso que o Reddit fez desde a sua criação, o COO do Reddit mencionou que é espetacular pensar que o Reddit surgiu na mesma altura que o Facebook e que, apesar dos altos e baixos, sempre manteve a visão de conectar as pessoas com base no que as mesmas estão interessadas, permitindo assim conversas autênticas e, no futuro, muito provavelmente com recurso a multimédia (fotos e vídeos).

Em resposta à questão sobre o foco de negócio principal do Reddit, o COO mencionou que são os anúncios que estão a suportar financeiramente o Reddit, dado ser uma plataforma sem qualquer custo para os utilizadores, mas salientou que não foi fácil alcançar este modelo de negócio nos primeiros anos de vida da empresa.

Surgiu de seguida uma questão relacionada com a diversidade de utilizadores, ao qual o COO respondeu com aquele que poderia muito bem ser o slogan da empresa, dizendo que “o Reddit cria um ambiente realmente flexível para pessoas que são realmente criativas”. Acrescentou ainda que a identidade das pessoas é irrelevante dado que o verdadeiro valor advém do contributo que dão às comunidades, tornando-as em ambientes confiáveis e autênticos.

A conversa prosseguiu para o tema da pandemia e em como a mesma tinha afetado a empresa, tendo Jen Wong mencionado que, apesar das lamentáveis circunstâncias, foram uns 18 meses incríveis para o Reddit, começando pelo crescimento acentuado de comunidades de discussão sobre a pandemia que surgiu logo em março de 2020. Mencionou ainda que, apesar do trabalho remoto, a empresa aumentou para o dobro no número de funcionários, o que considera verdadeiramente fantástico.

Quanto às consequências da pandemia, quer no Reddit, quer no mundo da tecnologia, declarou estar muito otimista para o que se segue, não partilhando a visão que tem acompanhado em muitas situações, as quais refletem pontos de vista negativos.

Contando, neste momento, com cerca de 5o milhões de utilizadores e questionado sobre os planos para o futuro, Jen Wong começou por dizer que irá haver um aumento incremental do empoderamento dos indivíduos, de forma natural, mas que irão continuar a investir nos anúncios para a plataforma, o que se tornará, cada vez mais, num grande investimento. Partilhou ainda a esperança de que “mais pessoas virão para o Reddit através do interesse nalguma comunidade ou discussão, sendo que, à medida que vamos entrando em novos territórios e países, vamos percebendo o que é correto para cada comunidade”.

Seguiu-se uma questão relativa à moderação dos conteúdos e ao objetivo último das comunidades do Reddit, que teve uma resposta reiterada ao longo da restante conversa. Jen Wong ambiciona que todas as comunidades possam vir a ter moderadores locais. Quanto ao foco para as comunidades, o mesmo passa por permitir que todas sirvam o propósito para o qual existem, acrescentando ainda que as mesmas devem conduzir à ação e a muito mais do que isso. Reforçando a ideia, acrescentou ainda que muitos dos moderadores são trabalhadores da área de discussão, dando o exemplo de que muitos dos moderadores das comunidades de discussão de temas relacionados com a pandemia são cientistas. Em jeito de conclusão do tema, referiu que a comunidade tem feito um excelente trabalho, na maioria dos casos, no combate ao bullying através das discussões nas comunidades.

Sendo um dos temas mais debatidos, quer na Web Summit, quer na sociedade em geral, os dados foram o tema seguinte e a opinião de Jen Wong foi ao encontro do que o bom senso recomenda. “Nós acreditamos que não deve ser necessário fornecer os nossos dados pessoais para podermos interagir com as comunidades”, referiu o COO do Reddit, descartando desde logo qualquer intenção de armazenar os dados pessoais dos utilizadores. Acrescentou ainda que “temos um modelo de negócio através dos anúncios que é eficaz, mas não estamos a usar dados dos utilizadores para ter mais lucro”.

Para concluir a sua intervenção e questionado sobre a dependência do Reddit em relação a alguma empresa, Jen Wong simplificou ao dizer que “estamos todos interconectados. Vamos ajustar o nosso caminho, mas neste momento não haverá qualquer alteração ao nosso modo de funcionamento”.

Com o título Building a billion-dollar company, a sessão que se seguiu contou com a presença do Co-founder & CEO da Bolt, Markus Villig.

O primeiro dos temas a ser discutido foi o domínio na Estónia nos primeiros dias de vida da empresa de transporte de passageiros, concorrente da Uber, FreeNow, entre outras. Em resposta ao comentário do moderador que afirmou que a implementação neste país ocorreu por força das circunstâncias e que rapidamente a Bolt passou a dominar o mercado, Markus Villig respondeu que a única razão pela qual tal sucedeu foi porque desde sempre tiveram “fome” de ser bem sucedidos. Acrescentou ainda que houve um certo facilitismo dado o apoio mediático, uma vez que os jornalistas rapidamente se interessam por um produto que representa uma área de negócio ou uma tecnologia de ponta.

Seguiu-se uma atividade que envolveu a audiência presente no Altice Arena. Após um pedido do moderador para que levantassem os braços aqueles que se tinham deslocado durante os dias do evento utilizando os serviços da Bolt, metade dos participantes levantaram as mãos, para espanto do mesmo que expressou um “Wow!”

O tema que se debateu de seguida foi, provavelmente, o mais transversal a todas as palestras destes 4 dias da Web Summit: como é que ocorreu a adaptação ao trabalho à distância? Neste assunto, o CEO da Bolt foi muito claro: “Nós já temos este modelo de trabalho à distância a funcionar na Bolt há muitos anos, portanto já estávamos habituados.”

Para terminar, e questionado sobre os planos para o futuro, referiu que “deveremos manter-nos focados no trabalho para garantir que tudo continua a correr como seria de esperar.”

Apesar da entrevista levada a cabo durante a manhã, assistimos ainda à palestra que contou com a presença de Bozena Rezab, CEO da GAMEE.

Começando pela clarificação sobre o porquê de aliar o blockchain ao gaming, Bozena Rezab salientou que “a comunidade [de jogadores] está sempre muito interessada em novas experiências e tecnologias e, portanto, não hesitamos em liderar a mudança”. Acrescentou ainda aquela que é a missão da empresa, “introduzir direitos digitais aos jogadores e dar-lhes royalties.”

A conversa prosseguiu com a mudança de paradigma na indústria dos videojogos, tendo a CEO da GAMEE dado uma resposta muito educativa: “Olhando para a história dos videojogos, foram muitos os momentos em que a indústria mudou, especialmente quando apareceram as lojas de aplicações [Google Play Store e App Store], uma vez que deram a toda a gente a possibilidade de jogar um jogo e partilhá-lo com outras pessoas. Jogar é algo muito humano. É a forma como aprendemos e interagimos com o mundo. É um comportamento humano. Dito isto, temos de mudar o conceito de gaming, especialmente em termos económicos, o que significa que, se os jogadores investem o seu tempo a jogar um determinado jogo, devem ganhar [dinheiro] a partir do mesmo, coexistindo um consenso e uma crença mútua. Há uma geração que já está preparada para isto!”

Disto isto, respondendo a uma questão relativa ao porquê do blockchain e não outra tecnologia qualquer, Bozena Rezab mencionou que é graças à tecnologia que se “podem partilhar os sucessos, especialmente no que diz respeito ao lucro [dinheiro], ainda para mais tendo em conta que este é o novo nível de posse.”

Numa clara declaração para a indústria e para os gamers, Bozena terminou a sua presença na Web Summit com a crença de que “este é um momento que representa uma enorme oportunidade para os gamers. Também os jogos terão de ser criados com uma outra mentalidade”.

 

A talk que se seguiu foi uma das mais aguardadas e das que mais se destacou nesta edição da Web Summit por se focar numa área pouco abordada: o setor da exploração espacial.

Carlos Garcia-Galan, o espanhol que é neste momento líder da integração do European Service Module (ESM) na NASA, mais especificamente no Programa Orion, subiu a um dos palcos da FIL para apresentar os próximos planos da agência espacial norte-americana, com destaque para a missão Artemis.

Com mais de 20 anos de experiência na NASA, apresentou à audiência, começando por um vídeo, a próxima missão que tem por objetivo colocar um humano na Lua, à semelhança do que aconteceu em 1969 e nas viagens Apollo que sucederam à Apollo 11. E por falar em Apollo, o nome da missão é, nada mais, nada menos, do que o nome feminino da primeira missão que colocou um humano na Lua, Artemis. Este missão incluir assim o Programa Orion, o qual é liderado pelo espanhol.

Conduzindo a apresentação de forma clara e direta, colocou a pergunta “Porquê a Lua outra vez?”.

A resposta que o próprio deu foi simples: “tem um bom solo e, desta vez, o propósito não é apenas lá chegar, mas sim construir no satélite natural do Planeta Terra uma base que permita alargar a exploração espacial para Marte e, quem sabe, até mais longe. Trabalhando com rovers e robots, a missão passa por construir uma infraestrutura independente da Terra.”

A data prevista, se tudo correr conforme planeado, está marcada já para fevereiro do próximo ano. O planeado é realizar uma missão Artemis 1 com a duração de 60 dias, como se de um teste se tratasse, lançando no segundo mês de 2022 a Artemis 2.

Em termos de progressos, há uma clara melhoria relativamente às missões Apollo. Para além de mais rápida e barata, esta é uma missão que será levada a cabo por 4 astronautas, num módulo com a possibilidade de ser acoplado a outros sistemas, contendo ainda 60 interruptores físicos, um cockpit envidraçado, 1200 sensores, muitas funcionalidades autónomas, incluindo a capacidade de voar autonomamente, e cameras.

O sistema de aterragem, também demonstrado no vídeo inicial, consegue reduzir de 25.000 mph para 320 mph numa primeira fase e para 20 mph numa segunda.

Com os olhos postos no futuro, se a primeira missão representou “um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade”, Carlos Garcia-Galan acredita que “voltar após 49 anos irá inspirar os jovens e as gerações seguintes.”

A última presença de peso na edição 2021 da Web Summit antes da cerimónia de encerramento contou com Sir Tim Berners-Lee, a mente brilhante por detrás da criação da World Wide Web (WWW) e atual CTO da Inrupt, e com John Bruce, CEO da Inrupt.

Ambos expuseram os problemas que a web atualmente possui, bem como propuseram soluções sócio económicas para os mesmos, assim como uma solução tecnológica de nome SOLID, uma das novas tecnologias da Inrupt, que pretende deixar a web novamente no caminho certo, de forma segura e global, dando aos consumidores uma visão completa dos seus dados e da pegada tecnológica.

Para terminar a Web Summit, Paddy Cosgrave subiu ao palco do Altice para dar as boas vindas ao último convidado da edição 2021, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa.

Com um discurso motivador e de olhos postos na mudança e no futuro pós-pandemia, Marcelo Rebelo de Sousa reforçou aquela que já era a intenção do CEO da Web Summit de conseguir trazer até Lisboa 100.000 participantes numa edição do evento tecnológico. No entanto, o Presidente da República acredita que tal seja já possível no próximo ano.

Cumprimentando euforicamente Paddy Cosgrave, Marcelo Rebelo de Sousa despediu-se do público que o aplaudia com o mesmo entusiasmo com que saudou a audiência assim que entrou em palco.

João Pires e Pedro Pacheco, Tech4U

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