Entrei na Faculdade, e agora?

Estamos em 2020, o ano da pandemia! Este ano entraram na primeira fase do ensino superior cerca de 51 mil alunos, mais 15% do que em 2019. A verdade é que este ano atípico trouxe um bónus, um aumento de vagas no acesso ao Ensino Superior em Portugal. No entanto, no essencial, há coisas que não mudam: se é verdade que muitos (mais) entraram, muitos continuaram a ficar de fora, outros não entraram naquilo que verdadeiramente almejavam e os sentimentos, esses também não mudam: felicidade e entusiamo de quem entrou naquilo que queria, tristeza e frustração de quem ficou de fora, um misto de emoções de quem entrou mas não  naquilo que desejava e todos carregam a intransponível dúvida: e agora?!

Fonte: Facebook FAP

Perguntem a quem quiserem e todos os que por aqui já passaram responderão: chegou uma das melhores (se não a melhor) fase da vossa vida!

Irão viver sozinhos/as pela primeira vez, o/a professor/a não irá saber o vosso nome, a vossa turma pode até ter mais de cem pessoas. O/A vosso melhor/a amigo/a no fim do primeiro ano, pode não ser aquele/a com quem farão os primeiros trabalhos, se sentarão ao lado, ou trocarão os primeiros apontamentos. O/A amigo/a para a vida que pode muito bem ser aquele/a com quem até não simpatizam num primeiro momento. Tudo pode acontecer nestes próximos anos de vida académica, mas há algo que é certo poderão perguntar a quem quiserem: chegou uma das melhores (se não a melhor) fase da vossa vida! Sejam bem-vindos ao admirável e encantado mundo académico!

Aos 18 anos entraram na faculdade para dar vida à pergunta “o que queres ser quando fores grande?”.

Entrar no ensino superior deveria ser considerado um marco, um privilégio. Não entram todos aqueles que se candidataram, não é acessível a todos aqueles que desejariam vive-lo! Desenganem-se, ainda há muitos jovens (e adultos) que sonham com o dia de poder dizer “colocado”! Porém, pouco também é explorado sobre o não ser colocado no curso desejado: muitos aceitam e resignam-se, muitos desistem e outros tantos continuam e acreditam que não há volta a dar, que é altura de enfrentar este desafio, estudar (q.b!) e delinear planos porque o tempo passa a correr e uma vez inseridos no mercado de trabalho, muitas serão as saudades do tempo de estudante. Em breve, ouvir a música “Amores de Estudante” ou a “Balada de despedida” vai fazer todo o sentido e, nessa altura, preparem os lenços porque vão chorar. Acreditem!

Voltando ao que nos trouxe até aqui: pôr em prática o que queres ser quando fores grande é uma enorme responsabilidade que se coloca aos jovens quando têm de decidir qual o curso no qual investir os seus recursos. Pensemos que alguns dos que agora ingressam no ensino superior, ainda nem sequer passaram no exame de condução e já tiveram de decidir o que querem fazer da sua vida (ou então não)!

Fomos ouvir experiências de ex-estudantes e esperamos dar alguma inspiração para quem está agora a iniciar, para quem está a meio ou a terminar este perCurso.

Fonte: Facebook FAP

(…) Era tripulante de ambulâncias. Tinha 20 anos e uma bagagem carregada de certezas. Queria ser enfermeira (…).

Em 2008, quando entrou em Enfermagem, a Patrícia já trazia consigo a experiência de salvar vidas. Há 6 anos que era voluntária na Cruz Vermelha Portuguesa e há 4 que era tripulante de ambulâncias. Tinha 20 anos e uma bagagem carregada de certezas. Queria ser enfermeira, nem que fosse no ensino privado. E assim foi!

Conhecia bem a adrenalina e o sentimento de quem anda na estrada numa ambulância. Todos os minutos contam!  Conta-nos que foi no ano de estágio que percebeu que não iria ser feliz nos corredores de um hospital e tudo aquilo que envolvia a vida de uma enfermeira, incluindo a precariedade a que estavam sujeitos, a desmotivaram. Não hesitou, e no último ano abandonou o curso, e foi trabalhar como comercial de formação. Hoje, mais de 10 anos depois, é feliz e não se arrepende do dia em que decidiu que não podia continuar em algo que não a fazia feliz.

Caros/as colegas, é verdade, há áreas em que o desemprego assusta de tal maneira que até nas aulas soam alertas!

Não desesperem, também há quem acerte à primeira. A Jéssica saiu de São João da Madeira rumo ao Porto para ser psicóloga, corria o ano de 2008. Conta-nos que cumpria à risca as idas a casa ao fim-de-semana, exceto na semana da queima, a semana sagrada! Nunca teve dúvidas do que queria, mas pelo caminho sofreu com as incertezas da profissão: ouviu, muitas vezes, os “profetas da desgraça” que lhe indicavam o caminho do desemprego como certo! Caros/as colegas, é verdade, há áreas em que o desemprego assusta de tal maneira que até nas aulas soam alertas!

Quando terminou o curso foi trabalhar na receção de uma clínica, lado a lado com quem já estava a exercer. Motivador? Nada! Mas, um dia o telefone tocou, era a oportunidade de um estágio. Hoje, a Jéssica é diretora adjunta na AMI (sim, na AMI), onde começou como estagiária e assim personifica a prova de que o caminho nem sempre é linear, mas que também de pouco serve fiarmo-nos em fatalidades.

E, por falar em fatalidades, o que dizer de quem entrou na faculdade, mas numa opção que nem tinha sido uma opção até ao momento? Se juntarmos a isso entrar na 2ª fase?

Este ano quase ninguém se conhece realmente porque não são permitidos convívios, semana académicas, etc., mas, em tempos, quando se chegava na 2ª fase, já muita tinta tinha corrido na vida académica dos recém-chegados. A 2ª fase entra meio perdida e, muitos, chegam também perdidos…

“14 anos depois (…) estou aqui, a frequentar o primeiro ano do curso de Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da UP.”

Contamos, para terminar, a história de alguém que nunca quis ser outra coisa quando fosse grande além de jornalista. Depois de 12 anos de escola bem feitos, estava mais do que convencida de que aos 18 anos, iria entrar em jornalismo, contudo, a (famigerada!) média não o permitiu! À última, na 2ª fase, decidiu entrar em Ciências da Educação e acreditou que posteriormente trocaria. Possível? Sim! Mas, não aconteceu, pelo menos não tão cedo quanto imaginava! Volvidos 14 anos, decidiu pôr realmente em prática o “quando for grande quero ser jornalista”!

Hoje, aqui estou, a frequentar o primeiro ano do curso de Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da UP, com menos dúvidas do que aos 18 anos, com incertezas do e agora e a escrever-vos para deixar-vos uns alertas:

Ser estudante é, sem dúvida, a melhor fase da nossa vida e ser trabalhadora estudante é um desafio duríssimo, mas nunca é tarde para seguir aquilo que acreditamos ser mais do que um sonho. No meu ano, há uma colega com os seus 50/60 anos, com licenciaturas, mestrados e um doutoramento, mas que me confidenciou… que Jornalismo era a sua primeira opção! Agora pensem bem antes de dizer que é tarde demais!

Tudo isto, para terminar, desejando-vos a todos um bom ano académico, estudem muito (q.b), (ou congelem a matrícula quando acharem que não faz sentido) , divirtam-se ao máximo, mas, acima de tudo, vão atrás daquilo que faz sentido!

E agora, evitem os ajuntamentos que queremos a Queima das Fitas em 2021!

 

Marília Azevedo

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