Ciberjornalismo académico em debate no ECA2019

Realizou-se na passada sexta-feira, dia 22 de março, o 1º Encontro de Ciberjornalismo Académico (ECA2019), no Porto. Tratou-se de uma iniciativa conjunta do Observatório do Ciberjornalismo e do JornalismoPortoNet (JPN), um dos projetos pioneiros de ciberjornalismo académico. Neste dia foram celebrados 15 anos desde a fundação do JPN. 

Nesta sexta-feira de festa para o JPN, juntaram-se vários órgãos de comunicação ligados a Instituições de Ensino Superior, no Polo de Ciências da Comunicação, no Porto. O encontro que reuniu este jornal, o Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra, o ComUM, da Universidade do Minho, o Jornal Universitário do Porto (JUP) e o Urbi et Orbi, da Universidade da Beira, assumiu-se como um evento de discussão e reflexão sobre o funcionamento destes meios de comunicação, dificuldades e forças inerentes a estes projetos. Outro destaque à partida prende-se com a participação do REC – Repórteres em Construção, o mais recente órgão a colocar a sua página ‘online’, a 1 de janeiro de 2019.

Como não podia faltar, ao longo do dia, foi relembrada a linha cronológica do ciberjornalismo académico em Portugal, da qual se destaca o Canudo, nascido na Universidade do Algarve em 1996, como um dos pioneiros.

“Se fores pressionado, coagido ou assustado, poderás confessar um crime que não cometeste”

A primeira sessão foi iniciada em inglês com a exposição da jornalista norte-americana, da Brandeis University, com passagens pelo The Boston Globe e The New York Times, Anne Driscoll, sob o mote “Losing Innocence and Finding Justice in the Age of the Internet”. Baseada no seu trabalho de investigação de casos de acusações injustas, o seu discurso foi apoiado em dados estatísticos e repleto de referências a casos criminais ilustrativos desta situação, como por exemplo, o crime em West Memphis de 1993.

De realçar a análise de Anne à realidade portuguesa quando falou de Almeida Garrett, poeta e jornalista português do século XIX, como primeiro exemplo para a injustiça legal. Por fim, ao abordar a justiça e a sua evolução nos Estados Unidos, apresentou um dos projetos com maior impacto na identificação e combate destas situações, o Innocence Project, fundado em 1992.

“Nunca vivemos um momento tão interessante para fazer ciberjornalismo”

Embora consciente dos problemas existentes neste tipo de dinâmica jornalística produzido por estudantes quer no número de colaboradores quer na quantidade artigos desenvolvidos nestes órgãos causados pela sazonalidade derivada do calendário académico, Pedro Jerónimo, docente da Universidade da Beira Interior, encara de forma extremamente positiva o desenvolvimento deste género de projetos que apelam à junção de vários ramos da sociedade, “estamos a falar do aparecimento de projetos em faculdades e contextos que não tinham nada a ver com Comunicação”. Nesta segunda sessão foram enunciadas algumas das potencialidades destes meios académicos que se apresentam como “espaços privilegiados para pensar o jornalismo”, tais como, os Laboratórios de Ciberjornalismo, onde os estudantes podem experimentar e ganhar experiência prática, e as Rotinas ao ritmo do ano letivo, com equipas flutuantes e irregular fluxo produtivo.

Por fim, sugeriu soluções para melhorar esta área digital, o que para além de criar mais parcerias com ciber media regionais a fim de otimizar tempo e recursos, também passa por investir na reportagem multimédia e no longform journalism, trabalhar em equipas multidisciplinares e experimentar.

 

“Descobrir os cibermeios é a melhor forma de começarmos a produzir e a pensar em multimédia”, Rui Barros

O prato forte desta reunião prometia ser o debate moderado por Filipa Silva, editora do JPN, com a participação de cinco oradores, centrado na problemática “Como melhorar o ciberjornalismo académico feito em Portugal?”.

Durante cerca de hora e meia, Margarida David Cardoso, ex-membro do JUP e JPN, Rui Barros, que atualmente trabalha na Rádio Renascença mas que já pertenceu ao ComUM, Teresa Abecasis, fundadora do REC, Pedro Dinis Silva, representante de A Cabra, e Rafael Mangana, “editor, jornalista, (…),fotografo, cameraman” do Urbi et Orbi, nas palavras do próprio, analisaram várias questões da atualidade e do futuro do jornalismo universitário, principalmente no “online”.

Reconhecendo as inúmeras potencialidades do mundo digital e apelando ao desenvolvimento e acessibilidade gratuita a novas tecnologias e funcionalidades ao serviço das histórias que são contadas, o consenso foi total no que toca à preocupação com a sazonalidade de produção gerada pelo calendário universitário, na atual ausência e necessidade de regulação dos ciberjornalistas – Rui Barros colocou a hipótese da criação de uma carteira para jornalistas estudantes académicos, por exemplo – e na atribuição de mérito e reconhecimento do papel que as academias possuem na evolução do jornalismo.

A palavra de ordem foi “investir”, quer a nível de recursos, espaço e conhecimento. Para Teresa Abecasis, os esforços inerentes a estes projetos têm de ser premiados e a visão sobre os mesmos alterada, a imagem deve apresentar este trabalho “não como uma atividade em que estudantes e professores gastam o seu tempo de forma altruísta”, além da pertinência do aparecimento de mais apostas de várias entidades nos mesmos.

Já Rafael Mangana reforçou, em várias ocasiões, a necessidade de responsabilizar os colaboradores para manter a produção durante o ano inteiro e a sua qualidade, invocando a atitude como elemento chave para o sucesso. Para além deste ponto, destacou a relevância de “encurtar a margem de erro no ciberjornalismo académico” para que este não seja uma bolha, isto é, que consiga replicar mais aspetos da realidade que os estudantes enfrentam após o curso. Além disso, ficou patente a quase obrigação de “puxar o ciberjornalismo para fora da universidade” e envolver a sociedade com estes meios.

Por sua vez, Margarida David Cardoso, destacou a rotação dos membros destes grupos de trabalho universitários como forças, na medida em que conferem novas ideias e a possibilidade de evoluir, e como fraqueza, deu o exemplo da descontinuidade no seu jornal, “se a memória se perde, o JUP vai mudar de identidade de ano para ano”. O diretor do Jornal A Cabra apontou uma causa principal deste problema como sendo a prioridade dos estudantes, estes centram-se no percurso académico pelo que deixam de investir tanto tempo nestas atividades.

Na reta final desta “mesa redonda” foram deixadas questões acerca da adaptação dos conteúdos dos ciberjornais a pessoas com necessidades especiais, o que suscitou a sensibilidade dos oradores para este problema, e sobre se o jornalismo deve ser pago pelos leitores, financiado publicamente ou o orçamento depender de publicidade. A conclusão para a sobrevivência de cada projeto foi unânime, fazer jornalismo de qualidade e este ser reconhecido pelos leitores.

 

REC – Da ideia ao online

Ativo desde janeiro de 2019, o REC- Repórteres em Construção, assume-se como um meio colaborativo que pretende “juntar estudantes e profissionais de jornalismo”, as peças jornalísticas são construídas por alunos orientados por professores e, depois de editadas, são publicadas no site. A vertente jornalística explorada é a reportagem, aqui os estudantes têm tempo para aprender e desenvolver a técnica nesta secção muitas vezes posta de parte durante os cursos de jornalismo que se dedicam mais à notícia e outros formatos, segundo Teresa Abecassis. De realçar que o REC tem um programa na Rádio Renascença.

O REC tenta contornar as oscilações no número de membros através de reportagens de cariz mais intemporal de modo a ter tudo previamente preparado e, caso seja necessário, manter a produção mensal. Igualmente com regularidade, são de destacar os encontros entre os colaboradores e profissionais da área durante um fim de semana, a cada mês, promovidos e comparticipados pelo próprio orçamento do REC. Assim é criado o espaço de reflexão e de desenvolvimento que pretendem atingir.

Uma vez que esta equipa trabalha sob um planeamento rigoroso, já está preparado o próximo trabalho, cujo tema é a Saúde Mental e a publicação no site está agendada para o dia 1 de abril.

JPN: 15 anos e muitas histórias a (por) contar

O dia 22 de março, Dia da Universidade do Porto, foi escolhido para marcar o lançamento oficial do projeto carregado de ambição para dar aos estudantes de Jornalismo a oportunidade de aprofundarem o conhecimento prático da profissão. Já passaram 15 anos desde essa decisão.

É de realçar o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo JornalismoPortoNet, cuja soma de vários trabalhos premiados requer mais do que duas mãos, tanto pelos Prémios de Ciberjornalismo do Observatório de Ciberjornalismo, tanto pelo “Jornal do Fundão”.

A última etapa do ECA foi um reviver de histórias deste ciberjornal numa conversa moderada por Ana Isabel Reis, diretora do JPN, na qual o público ficou a saber a origem do nome e a sua função inicial. O nome JornalismoPortoNet, que joga com a proximidade das palavras “ponto” e “Porto” como forma de referir a cidade em que o jornal foca a sua atenção, começou por ser para um do blog de apoio às aulas e só depois foi escolhido para ser atribuído ao ciberjornal. Fernando Zamith, criador desse blog e colaborador do JPN no primeiros anos, acrescentou que a linha editorial surgiu de forma natural porque “não tentamos definir nada, as pessoas na redação é que levaram a isso” e que o objetivo passava por construir algo único e focado na aprendizagem dos alunos, “Nunca se quis que o JPN entrasse em concorrência com outros”. Além disso, o conteúdo pretendia ser rico de histórias que os outros meios de comunicação não cobriam “por estarem a desinvestir no Porto e nas outras regiões”.

Além disto, foram abordadas as vantagens competitivas proporcionadas pelo ciberjornal para os novos jornalistas devido à experiência que estes vão adquirindo antes de saírem para o mercado de trabalho, aspeto mencionado por Pedro Rios, o primeiro chefe de redação. Foram ainda traçadas as características dos elementos  chave para o sucesso, com destaque para as intervenções de Bruno Giesteira e Sérgio Nunes, professores do curso de Ciências da Comunicação, como por exemplo, a variedade de conhecimentos e competências pelo facto do curso da Universidade do Porto, ao qual este órgão está associado, continuar a ser formado por quatro faculdades: Letras, Engenharias, Belas Artes e Economia.

Por fim, Luís António Santos, docente na licenciatura de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, ajudou a perspetivar o caminho dinâmico a traçar no futuro, “só pensar em fazer igual ao que já foi feito não faz sentido.”

O rumo a seguir passa por refletir e aplicar novas ideias, recrutar novos alunos a cada semestre, organizar o trabalho e tirar partido das suas competências e capacidades de cada um.

Como nota de destaque, a Engenharia Rádio esteve presente no evento e colocou questões para complementar o debate em diversas vertentes, desde a sustentabilidade dos projetos e questões relacionadas com o combate à sazonalidade referida, os desafios para a próxima década e até sobre o apoio institucional da Universidade do Porto a estes projetos. A Engenharia Rádio revelou ainda a intenção de estreitar os laços que unem estes meios de comunicação.

É para continuar

O 2º Encontro de Ciberjornalismo Académico vai decorrer na cidade da Covilhã no ano em que o Urbi et Orbi assinala 20 anos de existência.

Quem sabe se nessa altura o desafio lançado por Pedro Jerónimo a todos os presentes de contar a história do ciberjornalismo académico já tenha sido completado, “É uma história que ainda não está contada e seria bom se alguém a contasse do ponto de vista ciberjornalístico ou de investigação”.

 

Diogo Metelo

Fotos: Filipe Teixeira

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